Porta Entreaberta


E mais uma vez ele foi e deixou a porta entreaberta. A casa ficou mais uma vez vazia, cheia do eco de suas próprias dúvidas, de que, como sempre, será se ele vai voltar?
Em cada parede as evidências de quem ainda não sabe o que se foi, o que se perdeu. Quantas vezes, ele saiu sem avisar que voltaria? Quantas vezes ele saia para se divertir com outras, enquanto entre  aquelas paredes ela esperava ansiosa ele voltar? Quantas vezes ela escancarou as portas, janelas e o coração, esperando ele voltar? Inúmeras.
Hoje ela se pergunta se não é perigoso abrir a sua casa assim pra quem quer ser apenas uma visita, passar uma estação e não fazer moradia.
As gavetas continuarão desocupadas, o lado da cama continua a ser seu.
Cuidado com a próxima vez que deixares a porta entreaberta.
Cuidado com as suas idas e vindas, uma hora você irá encontrar as portas e janelas trancadas, ai não vai adiantar jogar pedra.

Desculpas


Não sou o tipo de pessoa que vive a se desculpar por algo que faço, pra ser sincera, eu meio que fico de saco cheio de gente que vive se desculpando. Não pelo fato das desculpas em si, mas pelo fato de ter feito uma coisa por querer, e mesmo assim pedir desculpas, ou se desculpar por expor sua opinião.
Sei que essa minha maneira de posicionar-me frente a este ato é meio radical, mas eu não sou boa em pedir desculpas, principalmente quando estou certa. 
Um quê de orgulhosa? Eu diria que um alfabeto inteiro de orgulho. Por isso, se alguma vez eu lhe pedi desculpas, quiçá , perdão, saiba que eu realmente prezo a sua presença na minha vida ao ponto de dar o braço a torcer, ou estou muito convertida ( amém ).
Sei que isso vai de encontro aos meus princípios religiosos, mas já fui muito transformada quando o assunto é pedir desculpas, até pelo o que eu acho estar certa. Eu fui entendendo que, mesmo na ingenuidade, por palavras, atitudes mal combinadas, sentimentos omitidos magoamos sem querer as pessoas,essas sim,merecem meu pedido de perdão. 
E não é porque eu não gosto que as pessoas fiquem o tempo todo pedindo desculpas, que você pode fazer a besteiras que for, que eu não vou esperar um pedido de desculpas, porque eu vou sim!
Mas se for pra pedir desculpas por coisas sem sentindo,devo começar a pedir de agora.
Desculpa mundo por eu existir. Mas, Deus foi quem me colocou aqui e eu não vim pra cá pousar de vítima com as palhaçadas que as tuas giradas dão. 
Desculpa sociedade por eu ser assim. Mas graças a Deus eu sou tão feliz com a poesia que eu construo a cada dia, a cada rasteira que as pessoas falsas que tu formas me dão, que além de te pedir desculpas, devo te agradecer: obrigada!
Amigos, me desculpem por várias vezes pensar mais em vocês do que mim e por conta disso eu acabar me ferrando por vezes e ainda sim, me passar por egoísta. Desculpa pelas vezes que marquei de sairmos ou uma visita e na hora H, furei. Não tenho explicações para isso, só pedido de desculpas mesmo.
Ao meu amor, eu peço desculpas por não mergulhar de cabeça nesse relacionamento que não é tão relacionamento assim. Aliás, eu tenho que te pedir desculpas pelo fato de que, sempre preciso que você me diga o que somos pra responder a quem me pergunta, sendo que o que somos é bom e diz respeito só a nós. Desculpa por te querer a todo tempo.
E que me desculpem meus ex-namorados mas o despeito é fundamental! Não é que vocês sejam tão ruins, mas faz parte da vida dizer aos outros o quanto vocês me fizeram sofrer, ou o quanto eram bobos por e para mim. 
Aos que acompanham o meu blog, desculpa pela falta de tempo, ando escrevendo muito e postando pouco. Acho que é isso que a vida adulta nos proporciona : a falta de tempo para coisas prazerosas. 
Me desculpem pela epidemia do ebola,de certa forma eu sou culpada de todo o mal que assola a África, seja pelo capitalismo ou por falta de orações. Me desculpem também pelo aquecimento global, mas eu uso desodorante aerossol, os outros me causam irritação. Eu também prefiro anda de carro ao invés de ônibus ou bicicleta porque eu sou mais uma burguesa que gosta de conforto.
Me desculpem pela situação política no Brasil, eu votei na atual presidente sim, agora me joguem pedras. Se ela foi eleita, não foi apenas o meu voto que a fez presidente.
Desculpem pela conta de energia, ela veio mais cara este mês e o calor está anormal.
Desculpem a maneira que eu me visto, até porque, quem paga pelas minhas roupas sou eu e minha mãe, não você. Mas todos presentes serão bem-vindo.
Me desculpem por pessoas que pedem desculpas até por ter nascido, ou pela morte da bezerra. Eu não sei lidar com tantos pedidos de desculpas assim. Desculpas se eu não sei pedir desculpas. 
E por último : me desculpem pelas desculpas. Eu só estou cansada de ouvir tantas desculpas, ou ter que inventar mais desculpas.
Desculpa!

Resiliência


Algumas semanas atrás aconteceu um episódio muito interessante comigo na aula, que trouxe outra vez vozes da morte sussurrar em meus ouvidos e desta vez, pude ouvir que eu não tenho sentimentos, por rir de uma situação que não era apropriada.
Pois bem, não vou explicar o porquê de ter sorrido, e não pensem vocês que  sou uma psicopata ou uma sádica (acabei meio que explicando ) que se regozija no sofrimento dos outros. Vim falar sobre resiliência.
E o que tem a ver resiliência com rir de situações inusitadas ?
Quem acompanha o blog deve ao menos imaginar que a maioria dos meus textos são bem pessoais e carregados de sofrimento, principalmente os mais antigos. A vida é isso. Não há quem tenha passado por ela sem sofrer ao menos com uma dor no canto da unha. E apesar de dor está associada a um incomodo físico, ela é subjetiva. Cada um tem sua maneira de sentir e expressar a sua dor. Às vezes o surgimento de uma espinha pode doer tanto quanto o fim de um relacionamento que parecia ser verdadeiro. Vai entender a mente humana! 
Eu sofri com perdas irreparáveis e não foi durante dias, foram anos de dias de chuva e dias de sol.
Em um desses dias, pude ler em uma revista sobre resiliência, um conceito da física que é a capacidade de um material voltar ao seu estado normal depois de ter sofrido uma tensão, que foi adaptado para a psicologia, é claro, de maneira mais subjetiva, que caracteriza pessoas que são capazes de lidar com contingências aversivas, situações estressantes, níveis altos de estresse e voltar ao seu estado "normal". Não só isso, como também tirar proveito das boas e más situações( pelo menos, foi isso o que eu entendi)
É como se fosse um coqueiro na faixa litorânea, que depois da tempestade, dos ventos fortes, ele continua de pé. Até tentaram derrubar o pobre coqueiro,pode ser que ele tenha ficado torto, ou os seus frutos e estejam bagunçados, mas depois que o sol volta, ele continua em seu lugar.
Depois de entender isso, passei a rir mais da minha vida, tirar proveito das situações desastrosas e principalmente, do meu sofrimento. A rir quando as contingências são favoráveis ou não. Eu vi que a vida fica mais fácil quando eu não paro pra fazer birra só porque ela não está como eu quero. 
Mesmo quando o coração está em pedaços e a alma inundada de lágrimas, hoje eu consigo abrir um sorriso no rosto e internalizar que amanhã, tanto a alma, como o coração, estarão juntos com os meus dentes esboçando um sorriso sincero com a certeza que o sol da minha vida vai voltar a brilhar. É só mais um dia nublado, a nuvem vai passar.
Aquelas vozes cessam ao meu ouvido ao lembrar que, apesar das críticas, cada um tem sua subjetividade, resiliência. Passo a respeitar tanto a opinião do outro sobre mim, porque sei que pra mim, também é difícil aceitar o outro na ia subjetividade.
O que eu preciso trabalhar em mim, não sou eu, como todos os homens, não é a minha " falta de sentimento ", ou qualquer outra característica minha peculiar que incomoda o outro, e sim o meu respeito pelo seu incomodo.
Quanto a rir da tragédia alheia, a vida nos dar tantos motivos para chorar, porque não tirar onda com a cara dela !?

Ele mora logo ali




Ele mora logo ali, do outro lado da cidade separada por uma ponte. E a ponte que nos separava é a mesma que nos uni. E foi na travessia daquela ponte que a vida dele cruzou com a minha.
E o vento e o clima trouxe a lembrança de que os muros que nos separava foram derrubados.
Ele mora logo ali, do outro lado do estado. Separado por quilômetros, por uma estrada. A estrada que afasta é a mesma que aproxima. Curioso como uma mesma pode ter via dupla. É o vento no rosto, enquanto eu pego a estrada, traz a memória e o cheiro que a cada quilômetro fica mais perto.
Ele mora logo ali, em outro estado. A saudade é quem me lembra de como tenho saudade de quando ele morava logo ali.
Mas ele ainda mora aqui, dentro do meu peito, na minha memória. A lembrança que eu não lembro de esquecer.
Ele ainda mora aqui,uma parte sua ficou, enquanto uma minha, ele levou.
Eu ainda vou dizer, do lado de fora da nossa casa, enquanto eu estiver observando ele lavar o carro, ou arrumar qualquer coisa, quando perguntarem aonde ele mora, eu responderei : "Ele mora logo ali, naquela casa. Onde todos os dias eu o vejo acordar."
Ele mora logo ali e todas as vezes que vai embora, eu fico a esperar. Ele, que mora logo ali!
Às 06:00 h a.m.,de quatro anos atrás, uma dor, como que de uma faca atravessando todos os meus órgãos ( imagino eu ), senti. Pensei que meu coração tivesse parado junto com o dele. Bem que eu queria, mas tive que sentir todo aquele turbilhão de emoções. Sozinha.
Chorei. Gritei. Fugi. Revoltei. Falei o que não devia. Ri quando não pudia ( ou assim pensavam as pessoas que estavam naquela cena, naquele dia tenebroso, a 4 anos atrás). Sozinha. Assim eu pensava.
Hoje lembro daquele doloroso dia em fragmentos, que antes, pareciam verdadeiros flash de filme de terror, lembranças de uma situação que me deixou mais forte.
Eu não choro mais, apesar da falta que sinto dele. O único grito que eu dou é de saudade, mas em silêncio. A única fuga que eu tenho são das coisas que me fizeram sofrer naquela época, e que vez ou outra, voltam a me atormentar. A minha única revolta foi não ter dito que te amava depois daquele ultimo abraço. O que falo hoje, é sobre as coisas bonitas que tu me ensinaste e de como influenciou a nossa educação. E, eu posso sim, rir, de todas as lembranças  das brincadeiras e dos momentos bons que me proporcionou em vida.
Pai, hoje eu lembro e sorrio. Não é que a tua falta não doa em mim. Não é que a tristeza não vem quando, ao lembrar que na formatura, tu não vai estar nas fotos e nem entrará comigo na igreja quando eu for me casar. Mas eu aprendi a sufocar a dor. Não me conformei, nem me acomodei, apenas transformei a dor em arte e aprendi a reinventar a minha história. Não sozinha.
Porque, o Deus que tu me ensinaste a amar, me mostrou Quem cuida de mim e que eu pudia suportar cada uma das minhas cargas.
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